sábado, 29 de julho de 2017

TONS DO HIATO

Por vezes sinto o que uma amiga chamou de "hiato na vida".
É claro que não  tenho tantas atribulações como ela, mas também há muito que não acompanho o que vem passando no cinema. Pra falar a verdade, em lugar nenhum, só uma série ou outra de TV. De alguma forma parece que nos vimos fechadas no mundinho "casa e trabalho". O trabalho, através do qual nos realizamos, onde talvez tenhamos alguma válvula de escape, é nossa forma de comunicação com o restante do mundo. Mas a considero meio impessoal, talvez porque não seja ali que estão as pessoas mais queridas.
Dentre estas pessoas mais queridas estão certamente nossos filhos, que muitas das vezes não enxergam os pesos que carregamos, ainda que alguns venham caber também a eles, seja qual for seu tamanho, forma, ou origem. E isso dói, ter o que eu chamo de "trabalho invisível" e, por isso, nunca valorizado. E dói também não ter com quem compartilhar os bons momentos. Ser feliz sozinho é possível, sim, só que é uma sensação meio estranha.
Sendo filha única, logo me acostumei com tudo isso, ainda que não seja agradável. Também não me custou muito perceber que estamos invariavelmente sozinhos, desde o momento em que nascemos até a morte. Nunca ninguém vai saber exatamente como é  estar dentro de nós  mesmas. Não tem como.
E o que há nos "hiatos da vida"?: aquilo que costumamos de classificar com a frase "Mas isso não é vida!"; se não é vida, é o que? Não tenho a resposta pra essa pergunta, é claro. Mas não é a morte, propriamente dita.
Talvez esses "hiatos da vida", que parecem enormes vazios, virem uma obra de arte na visão de algum gênio criativo. Talvez virem apenas memórias doídas. Por serem tão sem graça, talvez tornem-se esquecimentos. Mas foram nossos processos, e talvez não tenhamos nos dado conta bem ainda de quanta saúde precisamos para ter passado por eles, nem das pessoas que nos tornamos através deles.
Somos, enfim, contínuos processos, obras abertas com seus altos e baixos, cores claras e escuras, em todos os tons, não só de cinza, se alternando o tempo todo. Ter essa oportunidade é que é lindo, mesmo que não pareça.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

NOTHINGNESS

Breathing is what keeps you alive.
And can you grasp onto it?

You breathe in and it's over.
You breathe out and it's over.
All to start it all over again.

Contemplate, then, the nothingness of all things ephemeral
and their permanent evasiveness.

domingo, 15 de maio de 2016

YOUTUBERS

Ele é chamado de lindo, e tem tanto assunto quanto um ex-aluno meu de 7 anos metido a palhaço. Prova: faz beat-box de funk, sem qualquer sonoridade mais encorpada ou sutilezas de chiados. Assim ganha tempo e toma o nosso. Mas ninguém liga, vieram aqui pra isso.
Se auto-glorifica agradecendo à platéia lotada e enlouquecida para vê-lo. Agradece o carinho de todos e deve a eles seu sucesso: "Vocês são foda pra caralho."
O evento vira uma entrevista coletiva com perguntas da platéia. No palco tem também o melhor amigo, tão Youtuber quanto ele. Não param de se admirar com a quantidade de pessoas com os bonés da griffe deles. O boné escrito "PUTO" é plágio, o original é "CANALHA", dizem.
Se são comediantes tipo "stand-up", I'm sorry, não sabem improvisar.
Silêncio. Eu sentada numa cadeira cercada por crianças e adolescentes em pé em cima de outras cadeiras, nada vejo. Imagino que deve ser assim com o Stevie Wonder assistindo a um jogo da NBA: sabe de qual time foi cesta de acordo com o som da torcida.
"Minha maior felicidade é poder trazer uma risada pra uma pessoa que está mal.  Porque se ela está mal, ela não pode ficar no mal, ela tem que sair dessa, dar risada." Caridade profunda com crianças e adolescentes tristes e incompreendidos.
Daqui de baixo, na cadeira,  parece tudo muito calmo. Mas as atrações e a mestre de cerimônias pedem para que os fãs parem de jogar coisas (?) e que deem um passinho pra trás, pois aqueles posicionados junto à grade próxima ao palco estão ficando esmagados.
Momento Wando: jogaram um sutiã no palco, e ficamos sabendo que antes tinha sido um sapato.
Tão achando lindo pessoas querendo se matar pra tirar fotos com eles. E agradecem o carinho, pois eles trabalham para a felicidade dos fãs e não seriam nada sem eles.
Não mesmo.
Pra finalizar entoam  MC Bin Laden. Também não seriam nada sem ele.
Quem seriam?

Superação de Nama-Rupa

Transitar  confortavelmente por todos os portais: da Zona Sul do Rio à Índia, daí ao Norte da Inglaterra, daí à Korea Pop, daí a Westeros, daí a Middle-Earth, which is home.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Equilíbrio

Tem horas que quero arrumar tudo,
Outras que não quero arrumar nada.

Horas que quero marcar de ver todo mundo,
Horas que não quero encontrar ninguém.

Horas que quero fazer dieta ayurvédica,
Horas que desejo a ignorância de quem come o que está em promoção no Mundial e no Guanabara.

Tem horas que quero aproveitar cada segundo com meus filhos,
E horas que quero tirar umas feriazinhas deles.

Horas que quero viajar o mundo,
Horas que quero me refugiar no interior.

Mas o que quero mesmo
É parar de pensar
No passado
No futuro
E encontrar o silêncio na pequenez do presente,
Onde nada acontece.

domingo, 25 de outubro de 2015

ART CORE

When you smell like teen spirit
Você percebe a nova natureza
da selva de pedra
E o novo espírito de sobrevivência
nas manobras selvagens no
SK8

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Inverno Carioca

Vinha sendo um dia comum para mim. Meu filho não tinha nem um mês de nascido e, pela manhã, o tinha levado para o banhozinho de sol na orla, como de costume. Um sol meio pálido, porém contente, e uma temperatura amena, como convém ao inverno carioca.
Com meu primeiro filho, tão saudável, no colo; com casa, comida e roupa lavada pela minha empregada, tinha tudo e mais um pouco do que precisava. A vida corria bem, tranquila e feliz, e a televisão era mais uma utilidade doméstica, ali, onde sempre estava.
Logo depois do almoço tivemos a visita inesperada e sempre bem-vinda do padrinho dele que, também como de costume, chegou com seu jeito simpático e manso, e perguntou se eu não estava assistindo à televisão.
- Ah, então você não sabe... Liga aí pra você ver uma coisa.
Liguei e não entendia nada do que via. Um filme-catástrofe passando em mais de um canal na mesma hora? As imagens eram as mesmas, mudava só o tom de histeria dos âncoras. Desliguei quando um deles queria convencer os espectadores de que a imagem do Demo se formava na fumaça antes de se dissipar.
Confesso que até hoje me relaciono com o evento de mesma forma fria de alguém que assiste a matanças em filmes americanos. Neles as pessoas morrem como moscas, mas ninguém liga, porque sabemos que é de mentirinha. 
Nos dias subsequentes continuavam os episódios daquele mesmo seriado. Agora os protagonistas eram os bombeiros, e o suspense era criado pela esperança de que eles encontrassem sobreviventes entre os escombros.
Na sequência veio também o dó daquelas criaturas que tudo fizeram acreditando num paraíso com sei lá quantas mil virgens à sua espera. Quem no mundo ocidental se lembrava que havia muito mais gente se matando por aí por causa disso?
Há 14 anos atrás não havia internet como temos hoje, e até mesmo a televisão não tinha o mesmo alcance que tem agora. Nos locais preservados da informação imediata, a vida seguia, como seguia o sol pálido e a temperatura amena do inverno carioca. Mas sim, a vida nunca mais foi a mesma nos grandes centros, que se tornavam alvos mais ou menos visados, dependendo do grau de intimidade que seus governos tinham com o Tio Sam.
Quatorze anos depois vimos tendo uma nova série. Menos bombástica, menos badalada, menos assistida, menos comentada, talvez por ser uma produção mais, digamos, européia. Mas não menos perniciosa, como também não menos chocante. O mundo ocidental a vinha assistindo com um certo tédio e compaixão modorrenta, até que surgiu um protagonista mirim para estrelá-la de forma nefasta, aparecendo morto na praia trajando roupas de cores vivas. Foi aí que um sentimento, talvez atávico, nos uniu. Pelo menos durante os 5 minutos de fama que a linha do tempo do Facebook confere a seus eleitos, quando sentimentos profundos são despertados, até que você ria do próximo meme.
E a vida segue sob a chuva cálida que cai sobre os sem-teto no inverno carioca.